Estamos à beira de uma revolução. Uma revolução que vai fazer a revolução industrial parecer trivial. Estamos no foco, no precipício, de uma profunda mudança em nosso tecido social. As ações de hoje irão reverberar por séculos. Tecnologias como as bitcoins são o prenúncio dessa profecia.
Para entender o presente é necessário compreender o passado. Entendendo o presente, compreendemos o futuro. Esta revolução cultural tem raízes nos desenvolvimentos na área da computação nas últimas décadas. Alguns poucos homens dedicados tinham visão para compreender as capacidades das máquinas que estavam construindo. Graças ao seu legado para a computação, encontramo-nos na poderosa posição dos dias de hoje.
Origens da computação
A computação moderna começou em um ambiente acadêmico. Até a década de 80, a computação foi construída por acadêmicos que tinham amor pelo seu trabalho e aspiravam a melhoria da sociedade. Artistas orgulhosos criavam obras brilhantes, e os interesses comerciais ainda eram mansos.
Para criar um programa de computador, programadores escrevem em uma linguagem especial chamada linguagem de programação. Esta linguagem de programação está a meio caminho do mundo ambíguo da linguagem humana e o mundo altamente matemático da linguagem de máquina. Este código que eles escrevem é chamado código fonte. Se eu quiser entender como um programa funciona ou fazer modificações nele, eu devo ter acesso a este código.
O código fonte era compartilhado livremente entre os desenvolvedores. O código fonte tem a propriedade única de ser livre para redistribuir, livre para fabricar softwares e ser altamente reutilizável em muitos projetos. Ao misturar e combinar peças de software em projetos, os desenvolvedores criaram um novo mundo no espaço cibernético. Ferramentas para escrever, editar música, resolver matemática, descobrir a ciência e criar arte.
Comercialização
Durante os anos 80, os vendedores começaram a entender o poder dos computadores e começaram a comercializar os softwares. Software tornou-se um produto que não deve ser compartilhado, mas que deve ser reservado. Licenças transformaram o código fonte de um trabalho criativo ou excursão científica em um pedaço de propriedade intelectual que deve ser reservado. As informações foram fechadas e zelosamente guardadas.
Houve uma reação por parte dos desenvolvedores. Eles ficaram enfurecidos por uma ferramenta de libertação, estar agora sendo usada para controlar os usuários de computador. O software passou de uma relação da comunidade de desenvolvedores em uma relação fornecedor-cliente. Foi aqui que o início do movimento do software livre começou.
Devemos esclarecer aqui que o livre não significa livre no sentido usual de nenhum custo, mas livre como em liberdade. A questão não é preço, mas a liberdade. Estas são pessoas que acreditam que vivemos em uma sociedade científica de base tecnológica, e é uma situação perigosa quando essas tecnologias, que ocupam nossas vidas se tornam secretas. Que o seu funcionamento seja mantido escondido do público que depende delas.
Cultura livre como o Creative Commons tem sua origem em software livre. A cultura livre forçou um repensar na forma como encaramos nossas interações econômicas e tem esmagado velhos dogmas. Novos mercados foram criados com uma lógica diferente dos antigos mercados mais comerciais. Mercados baseados não na compra como algo autômato, mas na colaboração. Como no caso da Wikipedia.
A internet
Na mesma época, durante o início dos anos 80, a DARPA desenvolveu o TCP/IP. TCP/IP é o protocolo fundamental de como os computadores de hoje se comunicam na internet. TCP/IP foi desenvolvido para os militares, o que é evidente no modo como o TCP/IP funciona. Mas a própria natureza de como TCP/IP funciona teve algumas ramificações muito interessantes e efeitos-colaterais não intencionais.
Durante a guerra fria, os militares preocupados com um ataque nuclear procuraram inventar uma rede de inteligência que não podia ser destruída. Esta rede tinha que ser robusta e resistente ao ataque.
- Esquerda: rede centralizada cliente-servidor, direita: rede peer to peer descentralizada.
Os militares desenvolveram o TCP/IP como um sistema descentralizado. Redes sem qualquer ponto central sobrevivem ao ataque, aproveitando os recursos dos participantes, em vez de basearem-se apenas na autoridade central.
Se a qualquer momento, um dos nós for atacado, a rede pode contar com a força dos outros nós. É apenas quando um número suficiente de nós que compõem a rede são atacados, que a rede vai começar a colapsar.
Isso é chamado de degradação graciosa.
Tudo sobre o projeto de TCP/IP gira em torno de danos, controle e censura. TCP/IP é anti-autoritário por natureza. E é o protocolo subjacente da internet dos dias de hoje. TCP/IP, como um protocolo procura maneiras de contornar as peças danificadas da internet, e formas de evitar a censura e o controle. Isso fez com que a internet se tornasse no método de capacitação e educação dos dias de hoje.
Ao projetar um sistema que não podem ser atacado, as autoridades, inadvertidamente projetaram um sistema que não podia ser controlado ou desligado. Um sistema que evita a censura e punições que tentam ditar o seu comportamento.
Hacktivistas
Outro grupo que existia na época eram os primeiros hackers. Pessoas que procuravam usar o poder da internet e do software para efetuar mudanças sociais.
Em 1989, as máquinas do governo dos EUA em todo o mundo foram penetradas pelo worm WANK. As máquinas invadidas pelo worm tinham suas telas de login alteradas no primeiro exemplo de hacktivismo.
W O R M S A G A I N S T N U C L E A R K I L L E R S
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\ Your System Has Been Officially WANKed /
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You talk of times of peace for all, and then prepare for war.
Julian Assange escreveu as regras no início da subcultura: "Não danificar os sistemas de computador que você entrar, não alterar as informações de tais sistemas (exceto para alterar os registros que cobrem seus rastros), e compartilhar as informações ".
Forças combinadas
Hackers de software, internet e hackers de segurança não são grupos separados. Eles compartilham uma origem comum e uma mesma história e cultura. Muitas pessoas misturam-se dentro de muitos círculos, e mesmo dentro desta subcultura, há uma diversidade de grupos e sub-subculturas.
Essa cultura rica e profunda tem até seu próprio código de ética. Primeiro, os indivíduos devem ter uma forte privacidade pessoal. Segundo, toda a autoridade não deve ser confiável e a descentralização deve ser promovida. Terceiro, todas as informações devem ser livres. Não há regras estabelecidas, mas estes três temas são comuns ao longo dos vários movimentos online.
A verdade é o bem maior. A verdade é o mestre supremo e juiz. A verdade não precisa de deuses para funcionar. Seu potencial para transformar e moldar o mundo tem seu próprio poder. Apenas com o livre acesso à informação é que podemos vir a revelar a verdade para nós mesmos e viver como indivíduos livres.
Em 1992, Stella Liebeck comprou café no McDonalds. Ela derramou a bebida quente em si mesma e, posteriormente, alegando lesão contra o McDonalds porque o café estava quente demais, iniciou uma ação judicial por U$ 1 milhão. Ela é o exemplo de um caso de litígio frívolo nos EUA.
O que eu não mencionei é que o café foi servido a mais de 90 graus celsius e ela ter sofrido queimaduras de 3º grau em mais de 16% de seu corpo, ela passou oito dias no hospital para enxerto de pele e exigiu dois anos de tratamento médico. Quando ela pediu ao McDonalds para pagar U$ 20.000,00 para cobrir as despesas médicas que seu seguro não cobriria, eles fizeram uma contra-oferta de U$ 800,00. Durante o caso, ela se ofereceu para resolver fora dos tribunais com eles por U$ 20.000,00 e mais tarde por U$ 300.000,00 e eles recusaram ambas as vezes. Durante o caso verificou-se que havia outros 700 processos judiciais semelhantes, onde o McDonalds tinha resolvido fora do tribunal.
A diferença entre ter e não ter informação, é a diferença entre ignorância e verdade. Viver em uma democracia participativa significa que os participantes precisam de informações aberta, afim de tomarem decisões bem informados. Nós não podemos votar em representantes ou discutir questões importantes sem entender o contexto da história.
A web e tecnologias modernas que sustentam a nossa internet, foram construídas com esses princípios em mente. Tecnologias e padrões abertos foram e são os propulsores que desenvolveram a infra-estrutura da web. É através de protocolos abertos compartilhados que softwares de vários fornecedores e origens diferentes são capazes de operar uns com os outros para o ecossistema da internet funcionar.
Criptografia
Novos algoritmos matemáticos na década de 70 levaram ao desenvolvimento da criptografia de chave pública. Este tipo de criptografia permite que mensagens sejam criptografadas ou assinadas digitalmente, sem o remetente ou destinatário ter que revelar suas chaves para o outro.
O que faz este esquema significativo é que as pessoas podem criptografar mensagens para os outros onde apenas os destinatários poderão ler (nem mesmo a pessoa que criptografou poderá ler). As pessoas também podem assinar digitalmente uma mensagem e todo mundo vai saber que veio de tal remetente apenas.
A criptografia foi muito restrita por um tempo. Apenas criptografia fraca que poderia ser facilmente quebrada estava disponível para uso do consumidor. Criptografia forte foi sujeita à restrições de exportação nos EUA e classificada como munição. Para exportar criptografia, você tinha que ter a mesma licença requerida de um comerciante que vende armas e mísseis internacionalmente. Assim, manteve-se fora de uso geral.
Na década de 90, um hacktivista anti-nuclear chamado Phillip Zimmermann desenvolveu um software de criptografia forte denominado PGP. Ele distribuiu este software na internet gratuitamente para as pessoas efetuarem download.
O governo dos EUA rapidamente tomou conhecimento e Zimmermann foi levado a tribunal por exportação de munições, uma acusação séria nos EUA. O raciocínio para manter a criptografia restrita foi de que os terroristas e outros criminosos seriam capazes de esconder suas comunicações das autoridades.
Zimmermann desafiou essas acusações de uma forma curiosa. Ele imprimiu o código-fonte do PGP em um livro que vendeu internacionalmente. Venda de livros está protegida na Constituição dos EUA sob a primeira emenda. Desta forma, ele anulou o efeito da legislação. Seu caso foi silenciosamente abandonado.
Criptografia, em seguida, entrou em uso mais amplo e hoje sustenta grande parte do funcionamento da web. É usada para fazer pagamentos seguros na web e para proteger informações sensíveis como senhas de usuários.
Peer to peer
A Internet sempre foi sobre compartilhamento de conhecimento, e foi uma progressão natural que se desenvolvesse para o compartilhamento de arquivos.
Os primeiros dias de compartilhamento de arquivos consistiam de uma rede informal de sites e servidores através da divulgação boca-ouvido. Chatrooms especiais permitiam que as pessoas encontrassem filmes ou músicas a partir de grandes listas indexadas, que os direcionava para onde ir. Era uma rede informal de prestadores de serviços, agregadores e distribuidores.
A próxima evolução veio com o desenvolvimento de serviços dedicados de compartilhamento de arquivos, o mais proeminente sendo o Napster em 1999. O serviço era centralizado, mas permitiu a existência de uma plataforma para as pessoas fazerem upload e download de arquivos. Ações judiciais contra a Napster por empresas de mídia levaram ao seu encerramento.
Esta foi uma época de bonança para o desenvolvimento de tecnologias de compartilhamento de arquivos com uma variedade enorme de softwares concorrentes. Eventualmente, os softwares livres e descentralizados subiram para o topo em comparação aos serviços restritos e centralizados.
O mais notável deles é o BitTorrent, que hoje é muito popular e tornou os direitos autorais irrelevantes. Acesso instantâneo a todas os arquivos do mundo em poucos minutos. Nenhuma oferta comercial poderia sonhar com qualquer coisa próxima a isso.
BitTorrent é uma rede descentralizada, onde os usuários baixam arquivos uns dos outros. No entanto, para encontrar os arquivos que se deseja fazer o download, sites de terceiros são necessários por fornecerem uma interface fácil de usar para pesquisar na rede. Existem vários sites, como o The Pirate Bay.
Em 2006, a polícia invadiu a localização física dos sites de compartilhamento de arquivos sob o DMCA, uma lei dos EUA. Um deles foi o The Pirate Bay na Suécia. A raiva entre os suecos sobre esta violação da soberania levou à criação do Partido Pirata. (Seu fundador, Rick Falkvinge é um defensor declarado das bitcoins).
O partido se esforça para reformar as leis sobre direitos autorais e patentes. A agenda também inclui suporte para um reforço no direito à privacidade, tanto na Internet quanto na vida cotidiana, e a transparência na administração do Estado. O Partido, intencionalmente escolheu ser independente da tradicional escala esquerda-direita para prosseguir com sua agenda política com todas os partidos maiores.
Eles são o terceiro maior partido sueco por associação e ocupam dois assentos na UE. Fora da Suécia, partidos piratas foram iniciados em mais de 40 países. O Partido Pirata alemão ganhou 9% da votação em Berlim, em eleições recentes.
Dinheiro
Dissemos antes, os 3 princípios subjacentes ao movimento on-line de hackers; privacidade, anti-autoridade e transparência. Um determinado sub-grupo dentro deste movimento são os cripto-anarquistas. Usando criptografia, a idéia é reforçar a privacidade criptografando comunicações para proteger a privacidade pessoal e tornando impossíveis de espionar pela autoridade.
Diferentemente de outras formas de anarquia, o governo não está temporariamente destruído, mas está permanentemente proibido e é desnecessário. A ameaça da violência é impotente porque, embora o governo tenha um monopólio da violência, ela não pode resolver problemas de matemática.
Hackers começaram a considerar questões fundamentais e procuram resolvê-las através de software.
A privacidade é necessária para uma sociedade aberta na era eletrônica... Não podemos esperar que governos, empresas ou outras organizações grandes e sem rosto nos concedam a privacidade... Devemos defender nossa própria privacidade se esperamos possui-la... Cyberpunks escrevem códigos. Sabemos que alguém terá de escrever um software para defender a privacidade, e... vamos escrevê-lo...
~ Um Manifesto Cyberpunk
Uma questão era como resolver o problema do dinheiro. No início da década de 90 houve várias propostas para a utilização de tokens criptográficos.
Se eu quisesse transferir U$ 50,00 a Susie. Ela me dá sua chave pública, mantendo a sua chave privada escondida. Eu crio um contrato declarando que U$ 50,00 pertencem à chave pública que Susie me deu. O contrato é criptograficamente assinado por mim.
Se Susie quer transferir esses U$ 50,00 para Alice, ela pode agora tomar esse contrato e adicionar uma seção para o fim. Ela declara que U$ 50,00 pertence a chave pública de Alice e o assina usando sua chave privada. Qualquer um pode ver agora que os U$ 50,00 transferidos por mim, para a chave pública de Susie agora pertencem à chave pública de Alice. Se você pode validar que a chave pública de Susie realmente pertence à ela, e assim para a de Alice, então você sabe que Susie tinha U$ 50,00 e Alice tem agora U$ 50,00.
O problema com esse esquema é que os dados digitais são facilmente copiados. Depois de Susie enviar para Alice U$ 50,00, ela pode criar um contrato concorrente declarando que os U$ 50,00 pertence a John. Isso é chamado de problema de gasto duplo.
Soluções clássicas para resolver este problema sempre invocavam ter um processador central, intermediando cada transação para garantir que elas não sejam duplicadas. Nenhum das soluções foi bem sucedida, uma vez que exigia uma autoridade para um movimento que é anti-autoritário.
Wei Dai, autor de Crypto + +, escreveu um artigo sobre um sistema monetário digital descentralizado. Construção fora do conceito anterior de operações baseadas em criptografia, ele propôs a utilização de uma prova de trabalho (voltaremos a este ponto) como o mecanismo subjacente de criação da moeda. Sua proposta descrevia um sistema em que os notários negociariam algoritmicamente o crescimento da oferta monetária. Estes dois conceitos constituem o núcleo da tecnologia bitcoin.
Prova de trabalho foi uma proposta destinada a parar os spammers de e-mail. Ao exigir que o e-mail tenha um custo insignificante, torna-se inviável enviar milhões de e-mails. A prova de trabalho é que para obter um e-mail aceito, o computador do remetente tem que resolver um enigma matemático antes de o destinatário aceitar o e-mail. O enigma matemático precisa de processamento da CPU, o processador precisa de eletricidade, e dinheiro é gasto com eletricidade. Em última análise, este esquema não foi realizado como uma ferramenta para parar spammers, mas foi revivido nas bitcoins.
O esquema de Wei Dai tem o problema, porém, de que todos os notários na rede devem estar sempre on-line e sincronizados uns com os outros. Devido ao volume de transações, isso seria uma quantidade pesada de tráfego que seria facilmente suscetível a ataques de negação de serviço.
Bitcoin resolveu este último problema através de uma pequena modificação na engenhosa proposta de Wei Dai. A falha na proposta Wei Dai foi em manter-se sincronizado com as transações na rede. Bitcoin melhorou isso tornando o banco de dados das transações não-reversível.
Presente
Assim, o conceito de descentralização do software livre de criptografia peer-to-peer para uma moeda se tornou realidade. Uma moeda com base em criptografia forte e matemática, e não em leis e legislação. Este é o lugar das leis da regra matemática. Não há leis humanas aqui.
Sentimos a maravilha das bitcoins chamando-nos, e nós temos que ter coragem para responder a este chamado. Devemos olhar para dentro de nós mesmos e para o futuro. Bitcoin é uma das muitas tecnologias que nos levará para fora do simulacro.
